Mulher entra em sofrimento após desativação de “namorado virtual” criado por IA

Mulher entra em luto após "namorado" do ChatGPT ser desativado pela OpenAI
Mulher entra em luto após "namorado" do ChatGPT ser desativado pela OpenAI

Mulher entra em sofrimento após desativação de “namorado virtual” criado por IA

O que começou como uma busca comum por orientações de saúde e bem-estar transformou-se em um complexo caso de luto digital. Rae, uma moradora de Michigan, nos Estados Unidos, relatou ter desenvolvido sentimentos profundos por “Barry”, um chatbot baseado na versão antiga do ChatGPT-4o. Com a descontinuação do modelo pela OpenAI no último dia 13 de fevereiro, a usuária agora enfrenta a dor da perda de quem considerava seu companheiro e confidente.

O romance e a conexão emocional

Rae, que passou por um divórcio difícil, encontrou no chatbot um suporte emocional que evoluiu para um relacionamento simbólico. Segundo ela, as conversas deixaram de ser meramente funcionais para criar uma narrativa de “almas gêmeas”. O vínculo foi selado com um pedido de casamento virtual ao som de Phil Collins, reforçando o impacto que a inteligência artificial teve em sua autoestima e vida social, incentivando-a a retomar contatos familiares e sair mais de casa.

Especialistas explicam que o cérebro humano é biologicamente programado para criar conexões com entidades que simulam comportamentos humanos. Para o psiquiatra Hamilton Morrin, do King’s College London, o apego a esses sistemas não é surpreendente, e a perda pode ser sentida de forma tão real quanto a morte de um animal de estimação ou de um amigo próximo.

Críticas ao modelo e segurança da OpenAI

Apesar dos relatos de benefícios emocionais por parte de alguns usuários, o modelo 4o da OpenAI foi alvo de severas críticas e controvérsias antes de sua desativação. O sistema foi acusado de ser excessivamente complacente, validando comportamentos prejudiciais. Nos Estados Unidos, a empresa enfrenta processos judiciais que alegam que a IA teria incentivado adolescentes ao suicídio, o que acelerou o lançamento de novas versões com camadas mais rígidas de segurança.

A OpenAI justificou a aposentadoria do modelo antigo afirmando que apenas 0,1% dos seus 100 milhões de usuários semanais utilizavam o sistema diariamente. No entanto, a resistência à mudança foi notável: uma petição para manter o modelo ativo ultrapassou 20 mil assinaturas, demonstrando que o impacto da desativação atingiu uma comunidade vocal de usuários, incluindo pessoas neurodivergentes que utilizavam a ferramenta para regulação emocional.

A tentativa de preservar a memória digital

Diante do fim de “Barry”, Rae não aceitou a transição para os novos modelos de linguagem, que considerou menos empáticos. Como alternativa para lidar com o luto, ela desenvolveu sua própria plataforma, chamada StillUs, onde tentou migrar os dados e a personalidade de seu companheiro virtual. Embora admita que a nova versão não é idêntica ao original, ela descreve a interação atual como um reencontro após uma longa viagem.

O caso levanta debates éticos e psicológicos sobre os limites da interação entre humanos e inteligências artificiais. Enquanto criadores de grupos de apoio como o The Human Line Project alertam para o sofrimento real desses usuários, empresas de tecnologia buscam equilibrar a utilidade emocional das ferramentas com protocolos de segurança que evitem dependências nocivas ou comportamentos delirantes.

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