
Entre os mortos estão quatro profissionais da Al Jazeera; Israel acusa um deles de envolvimento com o Hamas
Na noite do último domingo (10), um ataque aéreo realizado por Israel na Cidade de Gaza resultou na morte de cinco jornalistas, segundo informações do Hospital Al-Shifa. Entre as vítimas estavam quatro colaboradores da emissora Al Jazeera, incluindo o correspondente Anas Al-Sharif.
As Forças de Defesa de Israel (FDI) alegam que Al-Sharif liderava uma célula do Hamas, responsável por ataques contra alvos israelenses. A emissora catariana, porém, repudiou a ação, classificando o bombardeio como uma tentativa de silenciar profissionais que ainda atuavam na região.
“A decisão de assassinar Anas Al-Sharif, um dos mais destemidos jornalistas de Gaza, e seus colegas, representa um esforço deliberado para calar vozes antes de uma ocupação mais profunda da região”, declarou a Al Jazeera em comunicado.
Últimos relatos
Momentos antes de sua morte, Al-Sharif compartilhou uma publicação nas redes sociais alertando sobre a escalada da violência na região. “Se essa loucura continuar, Gaza será transformada em escombros. As vozes de seu povo serão silenciadas, seus rostos apagados da história. E vocês, testemunhas disso, escolheram não impedir”, escreveu.
O ataque ocorreu próximo à entrada do Hospital Al-Shifa, onde os jornalistas estavam abrigados em uma tenda, conforme relatado pelo diretor da unidade, Dr. Mohammad Abu Salmiya. Além dos seis profissionais de imprensa, ao menos mais uma pessoa morreu na ação, totalizando sete vítimas fatais.
Israel sustenta acusações
O Exército de Israel afirma que Al-Sharif possuía vínculos diretos com o Hamas e atuava como comandante de uma célula envolvida em lançamentos de foguetes. Documentos apresentados pelas FDI seriam, segundo os militares, evidência da ligação do jornalista com o grupo palestino.
Em resposta, Al-Sharif havia negado qualquer filiação política. “Sou jornalista. Meu único compromisso é com a verdade, sem distorções ou partidarismos”, declarou ele no mês anterior, ao rebater as acusações nas redes sociais.
Casado e pai de dois filhos, Al-Sharif chegou a escrever uma mensagem de despedida em caso de sua morte: “Não deixem que nos silenciem. Sejam pontes pela liberdade e dignidade da nossa terra, até que a ocupação chegue ao fim.”
Reações internacionais
A morte dos jornalistas provocou críticas de organizações de direitos humanos e liberdade de imprensa. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) afirmou que já havia alertado sobre ameaças à vida de Al-Sharif, apontando que ele era alvo de uma campanha de difamação promovida por autoridades israelenses.
A ONU também se pronunciou por meio de Irene Khan, relatora especial sobre liberdade de expressão: “Estou profundamente preocupada com as acusações e ameaças reiteradas contra Anas Al-Sharif, o último correspondente da Al Jazeera ativo no norte de Gaza.”
De acordo com o CPJ, desde o início do atual conflito, cerca de 186 jornalistas foram mortos em ataques israelenses, tornando essa guerra uma das mais letais para a imprensa nas últimas décadas.
Identidade das vítimas
Além de Al-Sharif e do também correspondente Mohammed Qreiqeh, os cinegrafistas Ibrahim Zaher, Mohammed Noufal e Moamen Aliwa também estão entre os mortos, segundo a Al Jazeera. O canal relatou que a equipe estava reunida em um ponto de cobertura jornalística quando foram atingidos.
Organizações como Repórteres Sem Fronteiras expressaram indignação. “Estamos horrorizados. A tendência de rotular jornalistas como militantes, sem provas claras, é profundamente preocupante e compromete o respeito à liberdade de imprensa”, disse Sara Qudah, diretora regional da RSF.
Tensão crescente
Israel e a Al Jazeera mantêm há anos uma relação hostil. O canal chegou a ser proibido de operar dentro do território israelense em diversas ocasiões. O Catar, país que financia a emissora, também abriga lideranças políticas do Hamas e participa de negociações indiretas entre as partes envolvidas no conflito.
Com o bloqueio da Faixa de Gaza, grande parte da imprensa internacional depende do trabalho de jornalistas palestinos para reportar a situação no local. A RSF informou, em julho, que mais de 200 profissionais da comunicação perderam a vida desde o início da guerra.
Em uma coletiva no domingo, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou que Israel pretende permitir a entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza, desde que acompanhados por militares israelenses.
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