Na Bolívia Direita Lidera Pesquisas para Presidência Após 19 Anos de Governos de Esquerda

Bolívia: direita lidera pesquisas para presidência após 19 anos de governos de esquerda

As eleições gerais na Bolívia, agendadas para o próximo dia 17 de agosto, ocorrem em um contexto de profunda transformação política no país. Após quase duas décadas de domínio do Movimento ao Socialismo (MAS), partido liderado pelo ex-presidente Evo Morales, a direita surge como protagonista nas pesquisas eleitorais, enquanto a esquerda enfrenta divisões internas que enfraquecem sua base de apoio.

O cenário político boliviano está marcado pela disputa entre o empresário Samuel Medina, favorito nas intenções de voto, e o ex-presidente do Senado Andrónico Rodríguez, que apesar de ter sido aliado de Morales, não consegue consolidar sua candidatura, registrando números modestos nas pesquisas. Além do presidente e vice-presidente, os bolivianos irão eleger 130 deputados e 36 senadores, compondo o novo Parlamento nacional.

O MAS, que esteve à frente do país desde 2006, vive um momento de crise interna. Após a saída de Evo Morales para o exílio, motivada por acusações de fraude eleitoral em 2019, o partido voltou ao poder em 2020 com a eleição de Luis Arce. No entanto, a relação entre Morales e o atual governo se deteriorou, levando a um racha que enfraqueceu o partido. Morales, impedido de concorrer pela Justiça Eleitoral devido ao limite de mandatos, passou a defender o voto nulo, atacando seus antigos aliados e enfrentando denúncias que ele nega.

O presidente Arce, que enfrentou baixa popularidade e dificuldades econômicas, desistiu da reeleição, indicando seu ex-ministro da Defesa, Eduardo De Castillo, como candidato do MAS. De Castillo, porém, aparece com pouca força nas pesquisas, refletindo o momento delicado da esquerda.

No campo da direita, a corrida é liderada por Samuel Medina, um empresário que já foi ministro nos anos 1990 e que se posiciona como representante da centro-direita, e Jorge “Tuto” Quiroga, ex-presidente e vice-presidente da Bolívia. Juntos, eles somam quase metade das intenções de voto, abrindo caminho para a possibilidade inédita de um segundo turno, previsto para 19 de outubro, caso nenhum dos candidatos atinja os critérios para vitória no primeiro turno.

Especialistas apontam que a fragmentação da esquerda e o desgaste do MAS são consequências da liderança personalista de Evo Morales, que teria impedido a renovação interna do partido. O sistema eleitoral boliviano, baseado em listas proporcionais vinculadas ao candidato presidencial, aumenta o risco de que o MAS perca sua maioria qualificada no Congresso.

Além da disputa política, o contexto boliviano é marcado pela institucionalização do Estado Plurinacional, uma novidade constitucional de 2009 que reconhece a diversidade étnica do país e foi um marco do governo de Morales. Com a provável chegada da direita ao poder, há incertezas sobre o futuro desse modelo. Contudo, analistas acreditam que o novo governo precisará dialogar com diferentes forças políticas, o que deve preservar a estrutura constitucional vigente.

A eleição boliviana será um divisor de águas na política do país e pode representar o fim de um ciclo de governos de esquerda que influenciou profundamente a América Latina desde o início dos anos 2000.

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