Quem é Lisa Cook, a diretora do Fed no centro da disputa com Donald Trump
A Suprema Corte dos Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira (1º) que, em janeiro, vai ouvir os argumentos sobre a tentativa do presidente Donald Trump de remover Lisa Cook do cargo de diretora do Federal Reserve (Fed). Até lá, a economista permanece em sua função, decisão que reforça a tensão entre a independência do banco central americano e a Casa Branca.
O impasse jurídico
O tribunal rejeitou, por ora, o pedido do Departamento de Justiça para anular a decisão da juíza Jia Cobb, que havia suspendido temporariamente a destituição de Cook. A análise definitiva foi adiada para a audiência de janeiro.
A discussão gira em torno do Federal Reserve Act, de 1913, que protege os diretores do banco central contra interferências políticas. A lei permite a demissão apenas por “justa causa”, sem, no entanto, definir exatamente o que isso significa. Nunca antes esse dispositivo havia sido testado judicialmente.
As acusações contra Cook
Em setembro, a juíza Cobb entendeu que as acusações apresentadas por Trump — de que Cook teria cometido fraude hipotecária antes de assumir o cargo — não seriam suficientes para justificar sua saída, já que não ocorreram durante o exercício da função. Cook nega as acusações e afirma que sua remoção seria motivada por divergências de visão em relação à política monetária.
Em agosto, ela chegou a processar Trump após o anúncio de sua destituição, alegando abuso de poder presidencial e tentativa de minar a autonomia do Fed.
Contexto político e institucional
A tentativa de afastar Cook ocorre em meio à visão ampliada de Trump sobre os limites da autoridade presidencial. O Departamento de Justiça, em sua defesa, argumenta que, desde que exista uma justificativa formal, cabe ao presidente exercer discricionariedade para demitir diretores de agências federais.
Por outro lado, advogados de Cook afirmam que aceitar essa lógica abriria um precedente perigoso: permitir que futuros presidentes moldem a política monetária conforme interesses políticos e eleitorais.
Apoio de ex-dirigentes do Fed
O caso ganhou grande repercussão no meio econômico. Um grupo formado por 18 ex-integrantes do Fed e ex-secretários do Tesouro, incluindo nomes de peso como Janet Yellen, Ben Bernanke e Alan Greenspan, pediu à Suprema Corte que rejeite a destituição. Eles alertam que a medida comprometeria a credibilidade do banco central e abalaria a confiança dos mercados financeiros globais.
O perfil de Lisa Cook
Lisa Cook fez história em 2022 ao se tornar a primeira mulher negra a integrar o Conselho de Diretores do Fed. Reconhecida por sua trajetória acadêmica e experiência em economia internacional, ela foi confirmada pelo Senado para um mandato que se estende até 2038.
Em setembro, Cook participou da reunião que decidiu por uma redução de 0,25 ponto percentual na taxa de juros americana, posicionando-se a favor do corte.
Impacto na economia
O episódio reacende discussões sobre a autonomia dos bancos centrais. Especialistas alertam que qualquer fragilidade percebida na independência do Fed pode provocar instabilidade nos mercados e afetar diretamente o combate à inflação nos Estados Unidos — com reflexos em toda a economia mundial.
Trump, por sua vez, tem pressionado a instituição a reduzir os juros de forma mais agressiva, chegando a criticar duramente o atual presidente do Fed, Jerome Powell, com quem mantém um histórico de atritos.
O que está em jogo
A Suprema Corte, de maioria conservadora (6 a 3), já tem dado decisões favoráveis a Trump em outras disputas envolvendo agências federais. No entanto, ministros indicaram que podem tratar o Fed de maneira diferente por sua natureza “quase privada” e por sua tradição de independência.
Enquanto o julgamento não ocorre, Lisa Cook segue em suas funções, mas sua permanência tornou-se um teste crucial para os limites do poder presidencial e para a autonomia do banco central mais influente do mundo.






